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Reflexões sobre a atuação da Epamig no desenvolvimento da cafeicultura de Moçambique

O caso da Epamig, transferindo conhecimento e tecnologias para Moçambique, um concorrente potencial para o café brasileiro levanta uma questão essencial: até que ponto devemos cooperar nestes tipos de projetos? Tal cooperação faz parte de uma estratégia de longo prazo dos Cafés do Brasil? Que vantagens e desafios tal cooperação pode trazer para os produtores de café do Brasil?

Segundo matéria publicada pela Agência Minas Gerais no dia 16 de abril de 2026, a Epamig (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais) está atuando no desenvolvimento sustentável da cafeicultura de Moçambique.

A iniciativa faz parte de um projeto de cooperação em parceria com a FAO, agência da ONU (Organização das Nações Unidas) especializada em alimentação e agricultura, e conta com financiamento da Agência Italiana para a Cooperação ao Desenvolvimento (AICS). Em síntese, o objetivo é apoiar a implantação de um Programa Nacional de Cafeicultura em Moçambique por meio da resolução prioritária dos gargalos da produção, tais como nutrição, manejo, irrigação, insumos e ações de pós-colheita.

Aparentemente, participar desse tipo de projeto cooperativo é algo nobre, já que, como não há financiamento direto pelo Brasil, a transferência de conhecimento e cooperação científica proporcionados pela Epamig contribui para o desenvolvimento agrícola de um país que conta com população majoritariamente pobre.
Há, inclusive, possibilidade de ganhos indiretos, já que tal projeto traz consigo potencial para fortalecer relações internacionais do país, projetar o Brasil como referência em agricultura tropical e associar o país como participante de um programa da FAO, órgão da ONU cuja missão é combater a fome e melhorar a segurança alimentar no mundo.

Entretanto, há que se considerar um outro olhar, fundamental para uma reflexão central: Até que ponto a cooperação estratégica da Epamig em Moçambique pode afetar a vantagem competitiva da produção de café no Brasil?

De fato, é preciso considerar que o Brasil é o maior produtor e exportador mundial de café há décadas e que esse protagonismo se apoiou em pesquisa agrícola, governança na cadeia do café, escala e eficiência logística, dentre outros fatores. Neste processo, a estrutura de produção consolidada do país foi feita com base em ganhos de produtividade, melhoria de qualidade e sustentabilidade social e ambiental. O Brasil não se tornou líder apenas com vantagem natural. A vantagem competitiva de nossa cadeia produtiva foi construída, inclusive, com a participação de organizações de pesquisa como IBC, Embrapa, Epamig, Procafé, IAC e outros.

Assim, pensando sobre estratégias para o setor produtivo do café do Brasil, talvez, pontos importantes que deveriam estar na agenda seriam: como aumentar nossa capacidade competitiva? o que poderíamos ter como diferencial? como comunicar nosso posicionamento? como evoluir de país fornecedor de café para marcas de regiões que, por suas características exclusivas, conseguem agregar valor?

Inclusive, especificamente falando sobre capacidade de competir, fatores ligados à redução de custos, aumento de produtividade e desenvolvimento de novas variedades seriam questões importantes, todas com ligação direta com nossos órgãos de pesquisa. Neste contexto, manter a liderança produtiva do país requer estratégias para evitar difusão de tecnologia estratégica para outros produtores de café, o que de fato reduz a chance de surgirem novos concorrentes.

As chances de que Moçambique torne-se concorrente direto do Brasil no curto prazo são pequenas, mas talvez este tipo de pensamento também tenha ocorrido no caso da expansão que aconteceu no Vietnã nos últimos vinte e cinco anos. É sabido que criar uma estrutura produtiva não ocorre da noite para o dia, mas; e se houver continuidade dos investimentos? Inclusive feito por países compradores, talvez interessados em contar com múltiplos fornecedores, o que aumentaria seu poder de negociação com o setor produtivo do Brasil. E se Moçambique desenvolver uma governança eficiente? O que poderia acontecer por meio de parcerias entre o governo e outros países, inclusive aqueles que aderem aos projetos da FAO. E se por questões políticas e até humanitárias, Moçambique conseguir acesso diferenciado a mercados internacionais específicos?

A questão é que, talvez, estamos, por meio de uma empresa de pesquisa agropecuária do maior estado produtor de café do país, uma instituição pública estadual voltada para pesquisa científica agropecuária, desenvolvimento de tecnologias agrícolas, transferência de conhecimento para produtores e apoio à inovação no campo, fazendo parte de um projeto internacional de transferência de tecnologia e inovação para Moçambique. Isto faz parte da estratégia de Minas Gerais? Faz parte da estratégia dos Cafés do Brasil?

Vale o uso de recursos públicos como tempo, dinheiro, pessoal e estrutura mineira e brasileira para tal finalidade? O foco não deveria ser o produtor mineiro? Por que ajudar outros países enquanto há desafios no Brasil? E se a cooperação fosse direcionada para a produção de alimentos básicos em Moçambique, contribuindo para eliminar a fome no país, ao invés de fomentar uma cultura voltada à exportação para países ricos? Qual o interesse neste projeto de Moçambique? São estas as reflexões propositivas que precisam estar na “mesa”. Para que tenhamos discussões maduras, que envolvam projetos de ajuda a outros países, porém sem ferir a capacidade competitiva, seja no curto, médio ou longo prazo de setores nacionais. Estamos prontos para este debate?

COLABORADOR:
Lúcio Caldeira (Diretor de comunicação da Cocatrel)

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